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quinta-feira, fevereiro 13, 2014

"O CHEFE" CAPÍTULO 6 - ( 51 -60) Os 403 dias que marcaram o escândalo do mensalão



 Em março de 2010 , Ivo Patarra ,publicou o livro " O CHEFE " . O livro conta uma detalhada história da CORRUPÇÃO durante o governo Lula , especificamente dos 13 meses do ESCÂNDALO DO MENSALÃO  . 

     Ivo Patarra ( São Paulo ,8 de fevereiro de 1958 ) é jornalista e escritor . Ex- militante do Partido dos Trabalhadores , ele foi assessor de comunicação social da prefeitura de São Paulo na gestão de Luiza Erundina  ( 1989-1992) . Trabalhou na Folha de São Paulo , Folha da Tarde , Diário Popular e Jornal da Tarde . 


      Publicaremos os 21 capítulos do livro "O CHEFE" de Ivo Patarra , muito capítulos serão publicados em mais de uma postagem devido a quantidade de DENUNCIAS DE CORRUPÇÃO do governo PTRALHA .
       
     Queremos com essa publicação aproximar o cidadão trabalhador da leitura investigativa e das DENUNCIAS envolvendo esse governo PTRALHA que tomou de ASSALTO o Palácio do Planalto . Muitos não conhecem esse livro e isso me lembra uma tirada de Carlos Lacerda que denunciava a CORRUPÇÃO discursando  em cima de um caminhão ( caminhão do povo ) ; 
"SE O POVO NÃO SABIA , AGORA ELES SABEM . " 

  Agradecemos  ao jornalista e escritor Ivo Patarra , por ter coragem de denunciar essa ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA que chamamos de PTRALHAS . 

Obs; As fotos e os vídeos publicados  nas postagens não fazem parte do livro .



  Boa leitura ; 

Capítulo 6

Os 403 dias que marcaram
o escândalo do mensalão


51
3/7/2005 O programa Fantástico, da TV Globo, conta a história de uma mala de dinheiro entregue ao deputado José Borba (PMDB-PR), líder do partido na Câmara. José Borba esteve na agência do Banco Rural no Brasília Shopping em dezembro de 2003, quando ocorreram saques em dinheiro vivo.

Relato da secretária Fernanda Karina Ramos Somaggio, entrevistada pelo Fantástico: Marcos Valério se encontrou com Borba três ou quatro vezes, em Brasília. E levou uma mala de dinheiro para o deputado. Diz Fernanda Karina:
- Uma vez, eu me lembro que o senhor Marcos saiu com uma mala e foi para Brasília no avião do Banco Rural. E eu sabia que nessa mala tinha dinheiro. Ele pediu para eu ligar para o José Borba e depois para Delúbio ou Silvio Pereira, para dizer que estava indo para Brasília encontrar José Borba.
José Borba nega conhecer Marcos Valério:
- Nunca houve contato, nenhum encontro.

52
4/7/2005 Cai Silvio Pereira, o secretário-geral do PT. "Silvinho", como é conhecido, disfarça o afastamento do partido com um pedido de licença. Entre outras coisas, ele foi acusado de organizar a distribuição de cargos no governo Lula, embora nunca tenha ocupado posição pública na administração federal. Costumava despachar dentro do Palácio do Planalto. É do grupo do deputado José Dirceu, o Campo Majoritário, corrente do PT que também abriga Lula.
Silvinho ganhou notoriedade ao defender a permanência do governador Flamarion Portela (RR) no PT, apesar das acusações de desvio de verba que pesavam contra ele. O governador acabou cassado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). É possível que o afastamento de Silvinho já tenha a ver com a história do jipe Land Rover que o secretário-geral ganhou de presente de uma empresa contratada pela Petrobras. O assunto ainda não é público.

A imprensa põe as mãos em relatório de prestação de contas do PT, do ano de 2004. O documento foi registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Em dois anos, o partido do presidente Lula reconheceu que fez empréstimos de R$ 28,1 milhões junto ao Banco do Brasil, Banco Rural e BMG. O BMG entrou com R$ 2,4 milhões, e os detalhes foram revelados pela revista Veja. O Banco Rural, com outros R$ 5,1 milhões. E o restante, R$ 20,6 milhões, veio do Banco do Brasil, sendo a maior parte em contratos de leasing, para supostamente comprar 10 mil computadores e impressoras para o partido.
A oposição estranha a relação entre o partido do presidente da República e o Banco do Brasil, que se recusa a divulgar garantias, avalistas, taxas de juros ou quaisquer dados sobre os contratos assinados com o PT. O Banco do Brasil também se nega a informar se as parcelas do empréstimo vêm sendo honradas pelo partido. Alega sigilo bancário. Balanço do próprio PT acerca do patrimônio líquido da sigla no final de 2004, porém, registra um resultado de R$ 24 milhões negativos.
Outra revelação: apesar de o PT não ter saldado a operação de crédito de R$ 2,4 milhões feita em 2003, o BMG destinou no ano seguinte mais da metade das suas doações às campanhas eleitorais do partido do presidente da República. Os dados são do TSE. Dos 26 candidatos que receberam R$ 795 mil do BMG, 20 pertenciam ao PT. Ficaram com R$ 505 mil da bolada.
Mais Marcos Valério. A Folha de S.Paulo apura que as agências DNA Propaganda e SMPB Comunicação, de Marcos Valério, registraram depósitos bancários de R$ 500 milhões em 2004:
"Especialistas do meio publicitário ouvidos pela reportagem calculam, com base em estimativas de gastos das duas agências com a compra de espaço para veiculação de comerciais, que os ingressos de recursos nas contas da DNA e da SMPB são três vezes superiores ao que poderia ser justificado com a atividade de publicidade e propaganda em 2004."
No editorial "O amigo publicitário", a Folha afirma que "a promiscuidade entre a vida financeira das empresas de Valério e a do PT tornou-se flagrante":
"O episódio não é apenas constrangedor. Trata-se de uma acintosa violação aos mais elementares princípios republicanos. O fato de um publicitário responsável por contas de órgãos governamentais pagar dívida do partido do presidente da República já é, em si, um escândalo."
A Agência Reuters divulga tabela com o cruzamento de dados do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda). Existem coincidências entre votações importantes no Congresso Nacional, para aprovar projetos de interesse do governo Lula, e saques de dinheiro das contas das empresas de publicidade de Marcos Valério.
A análise contempla R$ 21 milhões em retiradas, durante dois anos. Média de um mensalão de R$ 30 mil por dia. Nas datas de votação de projetos importantes para o governo, os saques diários subiam para R$ 106 mil.
O levantamento: a votação em segundo turno da Reforma Tributária na Câmara dos Deputados, em 24 de setembro de 2003, coincidiu com retiradas de R$ 1,2 milhão nos dias 23, 25 e 26 daquele mês. Em dezembro de 2003, a Reforma Tributária foi aprovada pelo Senado. Houve um novo pico de saques, no total de R$ 2,8 milhões, em janeiro de 2004.
Em março de 2004, o governo Lula precisou de apoio para neutralizar as investigações sobre o caso Waldomiro Diniz. Também queria aprovar Medida Provisória contra as casas de bingo, para sinalizar que não compartilhava das irregularidades. Retiradas no período: R$ 1 milhão. Em seguida, mais R$ 700 mil, nos dias em que o Congresso debatia e aprovava o novo salário mínimo.
Mais uma coincidência: a aprovação da Medida Provisória que deu status de ministro ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, ocorreu em 1º de dezembro de 2004. Graças a ela, Meirelles ficou com foro privilegiado para se defender de denúncias de crime eleitoral, evasão de divisas, sonegação e lavagem de dinheiro. Dois dias antes, saques de R$ 480 mil no Banco Rural.

53
5/7/2005 Cai Delúbio Soares, o tesoureiro do PT acusado de tantas falcatruas. O afastamento é disfarçado de pedido de licença. Delúbio Soares desliga-se do PT, mas trata de proteger o presidente do partido, José Genoino. Isenta-o de qualquer responsabilidade nas decisões da área financeira do partido. E manda a surrada cantilena: acusa "conservadores" e "setores da direita" pelo escândalo do mensalão. Insiste: tudo não passa de manobra, cuja orquestração tem o objetivo de aprovar o impeachment de Lula.
Integrante do Campo Majoritário do PT, Delúbio Soares é considerado por correligionários e gente do próprio governo um "homem-bomba". Sabe demais. Sempre teve fortes ligações com Lula. A amizade com o presidente vem dos tempos de sindicalismo. Foi dirigente da CUT. Em 2000, entrou para a direção executiva do PT. Lula era o presidente de honra do PT. Participou de reuniões no Palácio do Planalto. Sem ocupar cargo no governo, foi convidado para eventos oficiais. Esteve na comitiva de Lula em viagem à África.


O líder do PMDB na Câmara, deputado José Borba (PR), volta atrás e agora admite conhecer Marcos Valério. José Borba, aliado do governo Lula, divulga nota à imprensa para refutar qualquer comportamento ilegal. O resultado é desastroso. Termina acusando Marcos Valério de negociar cargos no governo. A repercussão do caso faz Borba perder o cargo de líder do PMDB. A nota:
"Nunca recebi do senhor Marcos Valério qualquer numerário ou recursos financeiros, limitando-se o relacionamento ao fato de que o mesmo fazia parte do grupo do PT, que exercia efetiva influência político-administrativa junto ao Governo Federal."
E mais: "O meu relacionamento com líderes do PT, integrantes de sua executiva nacional e o senhor Marcos Valério sempre foram delimitados pela tratativa da ocupação de cargos públicos, em razão de pleitos de integrantes de nossa bancada, sendo leviana e politiqueira qualquer especulação de favorecimento financeiro a deputados do PMDB".
E, por fim: "O que discuti com dirigentes do PT e o senhor Marcos Valério é o que lideranças partidárias discutem hoje e sempre discutiram em todos os governos, a nomeação de seus partidários para cargos na administração".


O Congresso instala a CPI do Mensalão. Mais uma derrota do governo. Durante dez dias, a bancada governista, orientada pelo Palácio do Planalto, tentou impedir a comissão de inquérito. Em seu lugar, propunha apurar a compra de votos, com a alegação de que era preciso investigar a reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP), ocorrida em 1998. Agora, com três CPIs em funcionamento, muda a tática do governo. A base aliada parte para confundir as investigações, tumultuar os processos, dispersar os trabalhos e cansar a opinião pública. Desmoralizar as CPIs.


Relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda) em poder da CPI dos Correios indica que a agência DNA Propaganda recebeu, durante os primeiros dois anos e meio da era Lula, R$ 419,2 milhões em depósitos, numa conta do Banco do Brasil em Belo Horizonte. A metade do dinheiro, R$ 219 milhões, foi depositada irregularmente, sem identificação da origem dos recursos.
O expediente contraria a legislação de combate à lavagem de dinheiro, que obriga os bancos a obter declarações dos clientes sobre a origem de depósitos com valores superiores a R$ 100 mil. Além disso, a informação sobre os depósitos precisa ser registrada no Banco Central. O relatório do Coaf também identificou, no último ano, uma movimentação de R$ 5,5 milhões, em dinheiro vivo. A quantia passou por uma conta da SMPB Comunicação, em agência do Banco Bradesco de Belo Horizonte. Marcos Valério obtémhabeas-corpus para depor na CPI dos Correios sem correr o risco de ser preso.


Investigações mostram que Jacinto Lamas, tesoureiro do PL, esteve 15 vezes na agência do Banco Rural no Brasília Shopping, nos dois primeiros anos do governo Lula. As visitas foram registradas no sistema de segurança do edifício. Em nove das 15 vezes, houve saques que totalizaram R$ 2,3 milhões.
Jacinto Lamas frequentava o Banco Rural nos horários em que as agências bancárias estão fechadas, no começo da manhã ou no período noturno. O sistema de segurança também registrou o nome de Alexandre Chaves Rodrigues, motorista do então presidente do PTB, José Carlos Martinez. Esteve na agência em 14 de janeiro de 2004, dia de um saque de R$ 250 mil.

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6/7/2005 Marcos Valério depõe na CPI dos Correios. Nega conhecer o mensalão. Nega envolvimento em quaisquer irregularidades. Não satisfaz. Alega que pagou "fornecedores" com saques em dinheiro vivo de R$ 20,9 milhões. Tampouco convence quando diz que "a amizade por Delúbio" foi o motivo que o levou a ser avalista do empréstimo bancário de R$ 2,4 milhões ao PT. Parlamentares fazem graça da versão. Temendo a execução da dívida, Valério resolvera pagar uma parcela do empréstimo, no valor de R$ 350 mil.
Valério admite ter se reunido com o presidente do Banco Rural e o ministro José Dirceu (PT-SP) no Palácio do Planalto. Rechaça a hipótese de ter sido beneficiado em licitação que escolhia agência de publicidade para atender os Correios. E responde se fez doações a campanhas eleitorais:
- Se fiz alguma doação, foi dentro da lei... Doação, que me lembre, não. Como pessoa física, não fiz nenhuma doação.


Os empréstimos de R$ 20,6 milhões do Banco do Brasil para o PT derrubam dois dirigentes do banco. Caem os vice-presidentes de Finanças, Luis Eduardo Franco de Abreu, ligado ao PT, e o de Varejo, Edson Monteiro.
De novo o Coaf. Vem à tona que um procurador da Fazenda Nacional, Glênio Guedes, recebeu R$ 902 mil de Marcos Valério. Foram duas transferências, no final de 2003: uma de R$ 782 mil, outra de R$ 120 mil. À CPI, Valério disse ter conhecido o procurador num clube. Guedes foi afastado do Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional. Motivo alegado: deu parecer a favor do arquivamento de um processo contra o Banco Rural.
O jornalista Gilberto Alípio Mansur admite ter recebido R$ 300 mil da SMPB, por serviços prestados à agência de Valério. Suspeita-se que ele intermediou encontro de Valério com a direção da Editora Três, que edita a revista Isto É, para evitar a publicação de entrevista com Fernanda Karina.


Em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, Carlos Rodrigues (PL-RJ), acusado por Roberto Jefferson (PTB-RJ) de ser um dos deputados operadores do mensalão, reconhece que se reuniu com Delúbio Soares e Silvio Pereira para fazer "negociações políticas".
Carlos Rodrigues lista as nomeações que fez no governo Lula: dois diretores da Companhia Docas do Rio, um diretor do Serviço de Patrimônio da União, o diretor-administrativo do Portus, fundo de pensão do sistema portuário, e um diretor do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes).

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7/7/2005 E surge mais um empréstimo guardado em segredo pelo PT. O site da revista Época na internetdivulga operação de crédito no Banco Rural, de maio de 2003, no valor de R$ 3 milhões. O PT é o beneficiário e o avalista do empréstimo, mais uma vez, Marcos Valério. Ele assina a transação com o presidente petista, José Genoino, e com o tesoureiro, Delúbio Soares.
Da reportagem dos jornalistas Ricardo Mendonça e Eliane Brum: "As novas revelações caíram como um petardo sobre a imagem pública do PT. E, da porta para dentro, o partido implodiu. Quando surgiu o primeiro empréstimo garantido por Valério, no BMG, Genoino negou sua existência depois de consultar o tesoureiro Delúbio Soares. Desmentido publicamente e desgastado, Genoino entrou em depressão e se confessou magoado com Delúbio, que não o teria informado corretamente. Na quinta-feira, quando foi procurado por Época para falar do novo empréstimo, a respeito do qual novamente não tinha o que explicar, o presidente do PT deixou a mágoa de lado e passou a xingar Delúbio pelos cantos do partido, em São Paulo".


Fernanda Karina Ramos Somaggio, ex-secretária de Marcos Valério, presta depoimento à CPI dos Correios. Reafirma denúncias e trata do relacionamento de Marcos Valério com o deputado José Mentor (PT-SP). O petista foi o relator da CPI do Banestado, uma comissão de inquérito encarregada de investigar remessas ilegais de dinheiro para o exterior, em 2004:
- Uma vez, quando Mentor telefonou com uma notícia sobre a CPI do Banestado, o senhor Marcos Valério mandou que eu pegasse as 25 pastas suspensas em que ele guardava notas fiscais e de investimentos e picotasse tudo. Foram feitos quatro sacos de papel picado. O Marcos Valério só saiu da minha frente quando eu tinha picado tudo.
Sobre a logística dos saques de dinheiro vivo no Banco Rural, em operações determinadas por Marcos Valério e tocadas por Simone Vasconcelos, pessoa de estrita confiança do empresário:
- A Simone ligava, avisando que os boys iam passar no banco e a agência abria mais cedo. Eram dois ou três boys que se dirigiam ao banco para dar garantia, em caso de assalto. Acontecia pelo menos uma vez por semana. O dinheiro era acomodado em valises tipo 007, que ficavam no Departamento de Finanças da agência.
O relator da CPI, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), quer a confirmação de que o dinheiro ia mesmo para parlamentares no Congresso Nacional. Fernanda Karina Somaggio descreve o procedimento de Valério:
- Ele falava algumas vezes com o Delúbio e depois ligava para outras pessoas, falando: "Olá, deputado. Amanhã vou estar em Brasília". Um dia que eu o ouvi falando isso teve um saque, e ele viajou no dia seguinte.


Movimentação bancária de Marcos Valério intriga a CPI e dá pistas sobre os caminhos da corrupção. Trata-se de um crédito de R$ 2,4 milhões, seguido de um débito no mesmo valor. A operação foi mapeada pela Receita Federal. Ocorreu no BMG, em nome da Graffiti Participações, empresa de Marcos Valério, em 14 de julho de 2004.
O curioso é o valor do crédito, o mesmo da dívida de R$ 2,4 milhões contraída em fevereiro de 2003 pelo PT, com o aval de Marcos Valério, no mesmo BMG. Outra coincidência: naquele mesmo 14 de julho de 2004, Marcos Valério pagou R$ 350 mil da dívida do PT junto ao BMG. E mais: o Imposto de Renda da Graffiti não faz menção à origem do dinheiro, nem dá qualquer justificativa para o depósito de R$ 2,4 milhões na conta da empresa.


A Câmara dos Deputados rompe contrato com a SMPB. A agência de Marcos Valério havia sido contratada por R$ 9 milhões em 2003, quando o presidente da Câmara era o deputado João Paulo Cunha (PT-SP). Durante a vigência do contrato, o petista assinou dois aditivos, autorizando acréscimos de R$ 4,7 milhões nos gastos de publicidade.

A Prefeitura de Osasco (SP), berço político de João Paulo Cunha e onde o prefeito, Emídio de Souza (PT), é aliado do ex-presidente da Câmara, anuncia o cancelamento de licitação para contratar agência de publicidade. Do certame, no valor de R$ 3 milhões, participavam 17 empresas. Vinha sendo liderado pela SMPB. Marcos Valério já prestara serviços em Osasco durante a campanha eleitoral, por meio da Estratégia Marketing, contratada para assessorar o então candidato Emídio de Souza.
Antes de anunciar o fim dos serviços da SMPB, o presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti (PP-PE), sucessor de João Paulo Cunha, já havia autorizado mais R$ 8,2 milhões para a agência de Marcos Valério.
Em cena, o ministro Luiz Gushiken (PT-SP). O publicitário Alarico Neves Assumpção prestava serviços à agência DNA de Marcos Valério. Aí, assumiu importante cargo na Secom, a Secretaria de Comunicação da Presidência da Repúbica, comandada por Luiz Gushiken. Depois, acabou transferido para a SMPB, a outra agência de publicidade do mesmo Marcos Valério.
Alarico Neves Assumpção ocupou o posto de diretor de Mídia da Secom. Foi responsável pela supervisão de contas publicitárias do Governo Federal em ministérios e estatais. Antes de ir para a SMPB, atuou no comitê do governo Lula que negociava preços de anúncios e respondia por gastos públicos com propaganda oficial.
A força de Luiz Gushiken vem da influência nos fundos de pensão de empresas estatais. O ministro da Previdência Social, Ricardo Berzoini (PT-SP), é aliado histórico de Luiz Gushiken. Foi ele quem indicou o nome de Adacir Reis para chefiar a poderosa SPC (Secretaria de Previdência Complementar). Ela regula os 366 fundos de pensão do País, responsáveis por 960 planos de previdência complementar. Os fundos atendem 2,3 milhões de pessoas. Negócio de R$ 280 bilhões.
Outro aliado de Luiz Gushiken, José Valdir Gomes, foi nomeado na diretoria de Assuntos Atuariais da SPC, para exercer o controle estratégico dos fundos de pensão. Já Sérgio Rosa é presidente da Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil, o maior do País. Tem patrimônio de R$ 70 bilhões. Como Luiz Gushiken, Sérgio Rosa começou no Sindicato dos Bancários de São Paulo. Veio de lá também outra indicação de Luiz Gushiken: Wagner Pinheiro, presidente da Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, o segundo maior do País. Patrimônio de R$ 24,9 bilhões.
Lula põe fim a boatos sobre a saída do ministro Luiz Gushiken:
- Eu quero dizer aqui, para todo o mundo ouvir, que o companheiro Gushiken continuará dirigindo a Secom. O companheiro Gushiken cuida não apenas bem da Secretaria de Comunicação, mas do mundo de assuntos estratégicos, que é uma coisa extremamente importante. Eu acho que nós não podemos, a qualquer insinuação contra qualquer companheiro, a priori, achar que as pessoas são culpadas.
O deputado José Dirceu (PT-SP), por sua vez, defende a permanência de José Genoino no comando do PT. Em reunião do Campo Majoritário, a corrente hegemônica do PT, o ex-ministro fala em "conspiração das elites":
- Querem o impeachment do presidente Lula. É disso que se trata.


Agora, o loteamento de cargos na Fundação Real Grandeza, fundo de pensão dos funcionários de Furnas, cujo patrimônio é de R$ 4,8 bilhões. A reportagem de Irany Tereza, do jornal O Estado de S. Paulo, aponta um rateio entre os partidos políticos da base aliada do governo Lula:
"A presidência do fundo foi entregue a Marcos Antonio Carvalho Gomes, funcionário de Furnas, ex-sindicalista e petista do grupo do deputado Jorge Bittar (PT-RJ), e os demais diretores são indicados pelo PTB, PMDB e PP, num convívio administrativo extremamente conflituoso."
Os investimentos do fundo de pensão estavam concentrados em bancos de segunda linha, como o BMG e o Banco Rural. As aplicações no Banco Santos, quebrado em 2004, provocaram perdas de R$ 153,6 milhões.
Os "investimentos" no Banco Santos levaram ao afastamento do gerente de Investimentos do fundo, Benedito Siciliano, da cota do PTB. Ele foi dispensado, apesar dos protestos do diretor de Administração e Finanças, José Dias, nomeado pelo PMDB.
De acordo com o Estadão, "aplicações desse tipo, de alto risco, costumam gerar do banco compromissos de elevada rentabilidade. A suspeita é de que parte desse rendimento seria desviada para financiar partidos políticos".

56
8/7/2005 Os jornais estampam nas primeiras páginas as fotografias de uma bolada de dinheiro. Trata-se do conteúdo de uma maleta com R$ 200 mil e de outros US$ 100 mil, carregados escondidos dentro da cueca do assessor de um deputado do PT. Não qualquer deputado. José Adalberto Vieira da Silva, preso no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, trabalha para o deputado José Nobre Guimarães (PT-CE), líder petista na Assembleia Legislativa do Ceará, integrante do Diretório Nacional do PT e irmão do presidente nacional do partido, José Genoino (SP).



Antes de se calar e se recusar a prestar esclarecimentos à Polícia Federal, José Adalberto Vieira da Silva age com rapidez para apagar a memória do telefone celular. Diz ser agricultor. O dinheiro em seu poder, resultado da venda de verduras. Desmascarado, confessa ser assessor do irmão de José Genoino. Usa o paletó para cobrir o rosto e esconder-se dos fotógrafos.



José Nobre Guimarães, por sua vez, é um dos 14 parlamentares cujo nome aparece na agenda de Marcos Valério. Em entrevista, o deputado diz não saber por que seu nome está grafado entre os registros de Valério. Também ignora o que o assessor fazia em São Paulo. Deputado do Ceará, José Nobre Guimarães estava na capital paulista, no mesmo dia da prisão. Explicação dele:
- Foi tudo uma grande armação para atingir a mim e ao Genoino. Vou desvendar esse mistério.


Silvio Pereira, o ex-secretário-geral do PT, depõe na Polícia Federal. Define-se como "dirigente profissionalizado da executiva nacional do PT". Salário, R$ 9.000 mensais. O delegado Luís Flávio Zampronha de Oliveira considera incompatíveis salário e patrimônio declarado: um apartamento em São Paulo, no valor de R$ 180 mil, uma casa de praia em Ilhabela (SP), avaliada em R$ 400 mil, e um jipe da marca Land Rover, no valor de R$ 80 mil, que, segundo o depoente, foi financiado. Veremos.

57
9/7/2005 Caem José Genoino, presidente nacional do PT, e Marcelo Sereno, secretário de Comunicação do partido. Marcelo Sereno é do grupo de José Dirceu. Em 2008, ele voltaria à cena, como principal executivo da Grandiflorum Participações, compradora da refinaria de petróleo Manguinhos, no Rio. Já José Genoino, ligado diretamente a Lula, manteve o PT sempre próximo do Palácio do Planalto. Outro petista afastado: José Adalberto Vieira da Silva, assessor do deputado José Nobre Guimarães (PT-CE), irmão de José Genoino, o homem dos US$ 100 mil na cueca.
Lula põe gente de seu primeiro time no PT. O ministro da Educação, Tarso Genro (PT-RS), desliga-se do governo e assume a presidência do partido. O ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini (PT-SP), vira secretário-geral. E o da Saúde, Humberto Costa (PT-PE), é o novo secretário de Comunicação.
Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Tarso Genro fala de uma "crise de coerência moral do partido", com consequência "devastadora":
- O PT vive a pior crise da sua história.

59
11/7/2005 O Jornal Nacional, da TV Globo, leva ao ar conversa telefônica gravada pela Polícia Federal. Foi travada em agosto de 2004, quase dez meses antes de estourar o escândalo do mensalão. A fala é de Maria Auxiliadora de Vasconcellos, auditora fiscal do INSS (Instituto Nacional de Seguro Social). Ela foi presa sob a acusação de integrar uma quadrilha de fraudadores.
Na conversa com outra auditora, Maria Auxiliadora de Vasconcellos insinua que o ministro José Dirceu (PT-SP) e o ex-tesoureiro Delúbio Soares recebiam uma "mensalidade" da Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro). Em troca da propina, haveria relaxamento na fiscalização de empresas fluminenses. No diálogo gravado, Maria Auxiliadora de Vasconcellos cita o ex-ministro da Previdência Social do governo Lula, Amir Lando (PMDB-RO):
- Chegou às mãos do Almir Lando. Aí foi que ele disse: "Olha, na realidade, o que acontece é o seguinte: eu, no Rio de Janeiro, não vou mexer, porque eu me comprometi a não mexer. O Rio tem um contrato com a Firjan." Ele mesmo abriu o jogo: "A Firjan dá uma mensalidade, dá não sei o quê, e quem vai buscar é o Delúbio de Souza, sei lá, Soares, para as empresas não serem fiscalizadas".
Outro trecho da gravação:
- O Amir Lando é uma pessoa maravilhosa, é uma pessoa acessível, e ele foi muito claro ao dizer: "No Rio de Janeiro, eu realmente não vou mexer porque eu tenho compromisso com o José Dirceu".
O Ministério Público tem três testemunhas do suposto esquema de pagamento de propina para autoridades do Governo Federal por parte da Firjan. Os auditores receberiam ordens para não multar determinadas empresas. Em um caso investigado, houve pressão para anulação de uma multa. Após a autuação, o empresário multado obteria o cancelamento do processo, por interferência política.

60
12/7/2005 Caem os ministros Luiz Gushiken (PT-SP), da Secom, e Romero Jucá (PMDB-RR), da Previdência Social. Romero Jucá, acusado de desviar dinheiro de um abatedouro de frangos, voltaria a ter forte influência na administração Lula no segundo mandato, como líder do governo no Senado e relator da CPI da Petrobras em 2009. Já Luiz Gushiken, integrante do "núcleo duro" de Lula, assegura por ora um cargo na assessoria do presidente. Vai cuidar de um certo Núcleo de Assuntos Estratégicos. A Secretaria de Comunicação e as verbas de propaganda da Presidência da República ficam por enquanto com a nova ministra da Casa Civil, Dima Rousseff (PT-RS).


Em depoimento à CPI dos Correios, Eduardo Medeiros, diretor de Tecnologia dos Correios nomeado por influência de Silvio Pereira, garante: nada sabe sobre cobrança de propina por parte de funcionários da estatal federal, cujo cargo de presidente e seis diretorias, reconhece, foram loteados entre PMDB, PTB e PT. Ele admite que tomou conhecimento em duas ou três ocasiões do vazamento de informações acerca de especificações técnicas de licitações. Era "comum", segundo ele, a visita de deputados aos Correios, acompanhados de empresários interessados em negócios com a estatal:
- A maioria era do PMDB, naturalmente, porque o ministro, o presidente e três diretorias eram do PMDB.
Durante o depoimento, surge o caso do empresário Vilmar Martins, da Metalúrgica Gadotti Martins Carrinhos Industriais. Ele denunciou licitação dirigida e a cobrança de propina no valor de 20% do valor da nota fiscal, que deveria ser entregue em dólares, sendo a metade nas mãos do próprio Eduardo Medeiros. A chantagem: se o dinheiro não fosse pago, os Correios não aceitariam a mercadoria e não haveria pagamento. Depois de negar conhecer o empresário, Eduardo Medeiros, pressionado, confessa ter conversado com Vilmar Martins, "dois ou três dias" atrás.
Em outro depoimento à CPI, Antonio Osório, ex-diretor de Administração dos Correios, aponta na direção do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). Ele teria pedido dinheiro a diretores da estatal indicados pelo PTB. Alegou precisar de recursos para o caixa de campanha do partido. O dinheiro deveria ser fornecido por empresários que mantinham contratos com os Correios. Antonio Osório se reuniu com Roberto Jefferson em mais de 50 ocasiões.
A CGU (Controladoria-Geral da União) divulga relatório preliminar. Apurou 18 irregularidades em 69 contratos e licitações dos Correios. Um total de R$ 37,5 milhões em sobrepreços. Prejuízo potencial: R$ 79 milhões.


A Polícia Federal faz operações sigilosas de busca e apreensão de documentos nas instalações do Banco Rural em Lagoa Santa (MG) e no Brasília Shopping. Quer comprovar o que disse José Francisco de Almeida Rego, ex-tesoureiro do banco. Ele deu detalhes de como a SMPB remetia dinheiro de Minas Gerais para Brasília.
Segundo Almeida Rego, os saques se tornaram usuais desde o início de 2003, no primeiro ano da era Lula, e as retiradas chegaram a ultrapassar R$ 200 mil por operação realizada. O ex-tesoureiro recebia ligações da tesouraria da agência Assembleia do Banco Rural, em Belo Horizonte, onde a SMPB mantinha conta bancária. Eram solicitações para pagamentos em Brasília. Por fax eram indicados os valores e os nomes dos sacadores.
O tesoureiro tinha a responsabilidade de cuidar da liberação dos recursos junto ao Banco Central, e dos detalhes para a entrega. O dinheiro não deveria fazer volume. Por isso, vinha em notas de R$ 50 e R$ 100. Era levado para uma sala especial da agência. Ali as cédulas eram colocadas em bolsas que os próprios sacadores traziam. Tudo gente apressada que ia embora, em geral, sem conferir os valores.
José Francisco de Almeida Rego relata que Simone Vasconcelos, executiva da SMPB em Belo Horizonte, fazia retiradas na agência do Brasília Shopping. Mas não levava o dinheiro com ela. Assinava recibos e listava os nomes daqueles que passariam depois para receber. Na maioria das vezes eram pacotes de R$ 50 mil ou R$ 100 mil. As pessoas, por determinação dela, não precisavam se identificar. A Polícia Federal confirma que localizou documentos comprovando saques em nome da SMPB na agência do Banco Rural em Brasília, mas estranhou a falta de identificação dos sacadores.